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Diocese da Campanha - MG

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A CENTRALIDADE DA PALAVRA NA VIDA DOS PROFETAS LEIGOS E LEIGAS


Toda a ação evangelizadora da Igreja seja ela, por meios dos sacramentos[1], ou fora deles, por meios dos meios de comunicação social, pastorais e movimentos, a Palavra de Deus sempre deverá ser o centro. Ela é o centro de toda a ação do Reino de Deus.

Toda a ação litúrgica da Igreja perderia seu valor se a Palavra[2] não fosse a sua maior  expressão para que, a ação salvífica de Deus acontecesse. A Palavra de Deus é a razão da existência de toda liturgia, e de seus sinais[3] que proporciona condições de relacionar-se com Deus[4].

A Palavra de Deus precede ao batismo e a todos os ministérios. “O Kérigma precede a conversão e a catequese, o batismo” [5]. Para que alguém seja batizado é preciso que creia e para acreditar é preciso ouvir e para que ouça é preciso de alguém que pregue. O batizando ouvindo e acreditando na pregação, receberá o batismo. A palavra torna-se condição para que se creia. Sendo fiel aos ensinamentos de Jesus Cristo, sua fé, sua adesão à Jesus Cristo o fará membro da comunidade assumindo ministérios na Igreja e fora dela.

A fé é gerada pela Palavra de Deus, e o conhecimento da Palavra aprofunda-a. Esta fé nos ensinamentos de Cristo visa a conversão. “A palavra que suscita a fé faz a Igreja[6]: em primeiro lugar sob sua forma de palavra, testemunhando o fato do Cristo e apelando para a conversão” [7]. São duas palavras chaves que deverá acompanhar sempre o profeta de hoje: fé e conversão.

Os leigos e leigas comprometidos com o Reino de Deus, deverão estar sempre reavivando sua fé em Jesus Cristo pela Palavra, uma fé que transforma em conversão. Não existe uma fé isolada da vida, mas encarnada, e uma fé encarnada na vida tornará por meios de seus atos, atitudes e comportamento a expressão da pessoa de Jesus Cristo. Esta postura cristã é de testemunho das obras e ações de Deus no meio dos homens.

A fé e conversão andam juntas, uma completa a outra. A fé é dom de Deus e a conversão é resposta do homem à Deus. “(...), resposta ao anúncio do Evangelho, opera através da caridade que em nosso continente, deve ter uma dimensão sócio-política bem acentuada” [8]. Como já disse, não existe fé isolada da vida, a conversão é esta mudança necessária que acontece na vida da pessoa.

Uma conversão verdadeira é iluminada pela Palavra de Deus, que leva a confrontar-se com o ideal de Cristo, com o Reino de Deus[9]. “Não se entende a Palavra de Deus fora de uma perspectiva de prática da justiça” [10]. A Palavra de Deus que levar a pessoa mudar de direção, e ter uma consciência madura fundamentada  nela e não meramente sentimentos de bem-estar.

A Palavra de Deus sendo o centro da vida e formadora de consciência, levará o profeta a ter compromisso com o Reino de justiça, como parte fundamental de sua vida, como força que impulsiona o anúncio de Jesus Cristo. Ela gera a fé e, vivenciada, leva à conversão, faz dos leigos e leigas profetas e não tolera a injustiça presente na sociedade.

O profeta precisa ter coragem de denunciar para, então, anunciar. “Mas para anunciar e gerar a Palavra, é preciso ser terreno fecundo acolhedor, e ter uma profunda capacidade de escutar e cultivar a palavra” [11]. Cristo quer dar continuidade na implantação do Reino do Pai, não só através  dos padres, religiosos, mas, principalmente através de todos os leigos e leigas comprometidos com Ele[12], que anunciam este Reino através da força da Palavra e do testemunho da vida.

Portanto, o dever de ser profetas, torna-se como que um desafio. Primeiro, porque se faz necessário conhecer bem a realidade social, política, econômica, para que assim, possa confrontar com o Evangelho de Jesus Cristo; segundo, precisa-se conhecer bem a Palavra de Deus, deixar ela ser o centro de suas vidas, e transformá-la em oração sólida, em espiritualidade encarnada.

Neste capítulo, refletimos o ministério profético dos cristãos leigas e leigas em vista de seu dever de anunciar a Palavra de Deus, que se inicia, sobretudo pelo batismo fonte de toda missão. Este mesmo batismo nos chama à santidade e no convoca para exercer a tríplice função herdada de Jesus. No entanto, os cristãos são chamados a exercer a índole secular que é próprio de sua condição, sendo testemunhas, profetas de Jesus Cristo em vista do Reino de Deus. Assumindo assim, a Palavra de Deus como “mola mestra”, ou seja, Palavra que ilumina e impulsiona toda ação evangelizadora gerando fé e conversão, para transformar as estruturas injustas.

Para que tudo isso possa tornar-se realidade, e para que a Igreja cresça, cada vez mais, como sinal de Deus que caminha na história junto de seu povo. Faz-se necessário levantarmos algumas propostas de ação: meios para termos consciência de nossa co-responsabilidade com o projeto de Deus; proposta de formação para os cristãos leigos leigas. Formação: espiritualidade missionária, pequenas comunidades missionárias, teológica, política e outras;  e uma ação mais específica para a transformação da sociedade. Estes são assuntos que veremos no capítulo seguinte.


Geraldo Pereira de Freitras 
4º. ano de teologia
                                                                        
[1] “A Palavra e sacramentos têm, aliás, uma união orgânica: a pregação é litúrgica e a celebração deve ser profética, toda esclarecida espiritualmente pela palavra, comunica seu sentido à fé dos fiéis. Mas, destas duas formas do Pão da vida, a Palavra é logicamente a primeira” (Yves M. J. CONGAR, Se sois minhas testemunhas, p.94-95). “Palavra e sacramento constituem a Igreja”.  (João Batista LIBÂNIO, Cenário de Igreja, p.74- 88).
[2] “A Palavra de Deus na Igreja é um fator intrínseco da ação salvífica de Deus a respeito do homem, ele é geradora de salvação”. (Esta frase é de K Rahner, citado por João Batista LIBÂNIO, em seu livro, Cenário de Igreja, p.89).
[3] “No Evangelho, palavra e sinais caminham juntos. O sinal não toma todo o seu valor de sinal senão iluminado pela palavra”. (Yves M. J. CONGAR, Se sois  minhas testemunhas, p.122).
[4] A Palavra de Deus adquire sua maior força quando é exibitiva, isto é, realiza o que exprime, como nos sacramentos. (Cf. João Batista LIBÂNIO, Cenário de Igreja, p.74).
[5] Yves M. J. CONGAR, op. cit., p. 94-95.
[6] “A Igreja nasce no encontro com a Palavra, por isso a Igreja se coloca em escuta por meio da fé”. (Franco, MASSERDOTTI, Meditações de espiritualidade missionária, p.62).
[7] Ibid., p. 94.
[8] “A fé que opera através da caridade, expressa no compromisso de transformação das estruturas opressoras”. (Cf. Puebla, p.64)
[9] No Novo Testamento, conversão significa não somente arrependimento, mas algo muito profundo e pessoal: não simplesmente uma mudança do modo de ser, mas uma mudança de coração, um afastar-se do pecado, uma volta ao amor do Pai. (Cf. Daniel L. LOWERY, C.Ss.R. Dicionário Católico Básico, p. 43).
[10] Pe. Alberto ANTONIAZZI, A palavra de Deus na vida do povo, p.25.
[11] Franco, MASSERDOTTI, Meditações de espiritualidade missionária, p. 62.
[12] “O principal dever deles, homens e mulheres, é o testemunho de Cristo, que eles têm obrigação de dar, pela sua vida e palavras, na família, no grupo social, no meio profissional. É necessário que se manifeste neles o homem novo criado segundo Deus na justiça e santidade da verdade”. (Concílio Vaticano II, Decreto Ad Gentes, n. 21, p.379).

 


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