Infância e Adolescência Missionária

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Diocese da Campanha - MG


O ANÚNCIO DA PALAVRA, AÇÃO ESSENCIAL DO PROFETA


 

 Para que o anúncio da Palavra de Deus seja eficaz, os leigos e leigas profetas, precisam conhecer a Palavra de Deus: saber sua origem e experimentá-la. Em outros termos, a Palavra de Deus que é alimento deve ser vivida, deve ser o centro das ações humanas, sobretudo quando se trata de anunciar a Jesus Cristo, Filho de Deus que faz história com o seu povo.

A evolução da história humana, da história de fé do povo de Deus, aconteceu graças à comunicação. No início Deus disse: “Haja luz” (Gn 1, 3). Deus cria o homem e mulher e o conduziu pelos seus ensinamentos. Pela Palavra, Deus orientou Abraão, Isaac, Jacó, Moisés e outros profetas. E para que houvesse uma comunicação perfeita entre Deus e homem e, homem e Deus, o próprio Deus envia seu Filho Jesus Cristo, o Verbo de Deus.

O Verbo é a Palavra, “e a palavra se fez carne e habitou no meio de nós” (Jo 1,14). Jesus Cristo é a Palavra do Pai, “A Palavra se fez carne em todos os momentos da vida de Jesus, (...). Quem se encarna é o enviado, a palavra, esse movimento que procede do Pai, é dinamismo do Pai, amor ativo, expansão do Pai” [1], e por meio Dela “tudo foi feito” (Jo 1,3), é o Filho de Deus que[2] “sustenta o universo com o poder de sua palavra” (Hb 1,3).

A Palavra de Deus é o ponto de partida: “no princípio era o Verbo” (Jo. 1,1), o ponto de chegada: “ele é o princípio e o fim” (Col. 1,18-19) e deve ser o centro de tudo porque tudo foi criado por Ele, Nele e para Ele (Cf. 1,15-17). “O único caminho possível para penetrar nos desígnios de Deus, no plano ou projeto de Deus” [3] é a Palavra. O Cristo Palavra é o centro de todo projeto salvífico.

Ora, o Verbo era Deus, era o Filho de Deus, e nele nos tornamos filhos por adoção. Somos co-herdeiros com Cristo. Cristo é a comunicação perfeita entre Deus que é Pai e o ser humano. A Igreja como continuadora de sua missão[4] também é palavra[5], comunicação da verdade de Jesus Cristo para os homens. E Igreja, são todos os fiéis, cristãos leigos e leigas. Sendo assim, são comunicadores de Jesus entre os homens no mundo. “A Palavra, por sua natureza, tende à comunicação, à difusão. A Palavra de Deus quer ser comunicada a todos os homens” [6]. Os leigos são inseridos neste dever de ser comunicação de Cristo para os que ainda, não têm consciência de ser filhos de Deus.

Pelo batismo fomos incorporados a Cristo, nos tornamos comunicadores do projeto salvífico de Deus entre os seres humanos. Esta dimensão comunicativa acontece essencialmente pela Palavra. Somos pessoas da Palavra. Por isso, é ação essencial do profeta o anúncio de Jesus Cristo.

Mais do que nunca, o anúncio profético desta Palavra é urgente. O anúncio é tarefa de toda a Igreja. Mas aqui, ressalto a importância dos leigos e leigas, que imbuídos pela sabedoria de Deus, cheio do Espírito Santo e de seus carismas estão a serviço do Reino de Deus, na Igreja e no mundo[7]. “Os leigos se falam de Deus, é porque crêem nele. Sua palavra poderia ter algo de mais profético. Além disso, integrados no movimento do mundo, participam mais que o clero de suas vibrações” [8].

No entanto, assim como sacerdotes e religiosos são os cristãos leigos e leigas, sinais da presença de Deus no mundo, sinais da comunicação do amor, da justiça, da solidariedade. Os cristãos devem ser mais do que em todos os tempos, anunciadores da Palavra de Deus, como verdadeiros profetas, pessoas que experimentam da Palavra: que sabem ouvir, ver, viver ou saborear e comunicar esta verdade. 

 1. A PALAVRA EXPERIMENTADA

 Os cristãos, impulsionados pelo Espírito Santo para anunciar a Jesus Cristo, são inseridos em alguns princípios, para assim, aprofundarem na experiência e no conhecimento da Palavra de Deus. O coração do profeta deve ser o lugar da Palavra, para isso, precisa-se saber ouvir, guardar e saborear a Palavra.

Ouvir a Palavra é mais importante. É impossível anunciar a Palavra sem antes ouvi-la, “nada responder antes de ter ouvido" (Eclo 11,8). Só então daremos respostas. "A fé será sempre uma busca, um ouvir" [9]. Ouvir a voz de Deus na Palavra implica disciplina, exercício de oração, estar na presença de Deus. "Aplicai os ouvidos para ouvir minha voz, sede atenta para escutar minha palavra" (Is 28,23). Quando desviamos os ouvidos dos ensinamentos de Deus que nos orienta, voltamo-nos para os ídolos.

O coração ouvinte é sábio, pois, sabe pedir a Deus aquilo que é bom. Coração que se põe em busca, à escuta, sabe silenciar e é preso à Palavra, faz dela suas delícias[10]. "Aquele que me escuta, disse o Senhor, habitará com segurança, viverá tranqüilo, sem recear dano algum" (Pr 1,33).

Coração que escuta a Palavra ressoa-se e transforma em vida[11]. "Felizes aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam" (Lc 11,28).

O ouvinte da Palavra é simples, este não cria resistência à Palavra e Deus, e ela  faz de sua vida, morada. O simples de coração congrega todos os dados de sua vida naquele que fala, Deus. "Agarrado a Palavra, sem complicações, pode ele procurar o Senhor na simplicidade de coração, e o Senhor se deixa encontrar, pois" [12], "se vós o procurais, ele se manifestará a vós" (2Cr 15,2).

O coração que escuta também é fraterno aproxima-se cada vez mais daquele que se coloca a ensinar, o Senhor. A exemplo disso temos Maria[13], "assentada aos pés do Senhor para ouvi-lo falar" (Lc 10,39).

Se os nossos ouvidos estiverem abertos para a escuta, mais ainda deverá estar para guardar a Palavra[14]. Guardar no coração e na mente. "As palavras que eu vos disse, introduza-as em vosso coração" (Dt 11,18). "Se alguém me ama, guardará minha Palavra, meu Pai o amará, viremos a ele e nele faremos nossa morada" (Jo 14,23). A Palavra ouvida e guardada com fidelidade transformará em boas obras[15], ou seja, em sinais que o cristão leigo deverá deixar transparecer no mundo, como testemunha autêntica de Cristo. A Palavra guardada no coração será saboreada como "mel".

A Palavra é alimento para a fé e vida. “É preciso beber para fazer a experiência; deixar a Palavra permanecer no fundo do coração para que ilumine as áreas tenebrosas; experimentar seu sabor de luz" [16].

A palavra de Deus fazendo seu efeito será capaz de abalar nossos comodismos, os nossos desânimos. Ela é "fogo que queima", por isso, tem sua função de santificar, purificar, restaurar, libertar, etc. Ela não é estática, mas dinâmica, compromisso, luta, martírio (Cf. Ap 10,10). “Assumir uma ação profética-missionária, num processo de conversão permanente da Igreja ao Evangelho ‘para que o mundo creia’ e ela seja o sinal e instrumento de transformação da sociedade” [17].  Quer, por nossa entrega e despojamento, tornar-se realidade de fé e conversão para que o mundo seja mais humano e a Palavra de Deus seja realmente centro, dinamismo de vida.

 
Pe. Geraldo Pereira de Freitras 

[1] José de COMBLIN, O Enviado do Pai, p.37.
[2] Cf. Pe. Alberto ANTONIAZZI, A Palavra de Deus na vida do povo, p.14.
[3] Pe. Alberto ANTONIAZZI, A Palavra de Deus na vida do povo, p. 20.
[4] “A missão de Jesus Cristo procede do amor do Pai, e esse amor se torna presente no homem pelo amor do apóstolo (Cf. José de COMBLIN, O Enviado do Pai, p.83). “A Igreja comunidade santa convocada pela Palavra, tem como uma de sua principal tarefa a de pregar o evangelho”. (Cf. Concílio Vaticano II, Lúmen Gentium, n.25).
[5] “Quem diz palavra, diz ação, movimento. A palavra é comunicação de força. O evangelho apresenta a Jesus como ação, comunicação da força de Deus aos homens”. (José COMBLIN, Evangelizar, p.81).
[6] Pe. Alberto ANTONIAZZI, op. cit., p.24.
[7] “Sinal desta multíplice e urgente necessidade é a ação evidente do Espírito Santo, que hoje torna os leigos cada vez mais conscientes das suas próprias responsabilidades e os incita ao serviço de Cristo e da Igreja, em toda a parte”. (Concílio Vaticano II, Apostolicam Actuosiatatem,, sobre o apostolado do leigo, n.1, p. 530).
[8] Yves M. J. CONGAR, Se sois minhas testemunhas, p.124.
[9] Ana Agostinho ROY, Em  tua  Palavra, p.12.
[10] Cf. Ibid, p.15.
[11] “O modelo dos que ouvem a Palavra de Deus é Maria que ‘meditava, conservando no coração’ (Lc 1,38) e à qual Isabel fazia eco, dizendo: ‘Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas’ (Lc 1,45). O verbo é a Palavra do Pai, é gerado pela escuta de Maria e é por ela ‘comunicado’ para a salvação do mundo”. (Franco, MASSERDOTTI, Meditações de espiritualidade missionária, p. 60).
[12] Ana Agostinho ROY, op cit., p.17.
[13] Cf. Ana Agostinho ROY, op cit., p.17.
[14] Cf. Ibid., p. 24.
[15] A semente, que é a palavra de Deus, germinando em boa terra, regada pelo orvalho divino, absorve a seiva, transforma-a e assimila-a para produzir fruto abundante. (Cf. Concílio Vaticano II, Ad gentes, n. 22, p.380).
[16] Ana Agostinho ROY, op. cit., p. 25.
[17] José Ernanne PINHEIRO, et al., O protagonismo dos leigos na evangelização atua, p. 115.